Artigo: Garrison, Randy (2000). Theoretical Challenges for Distance Education in the 21st Century: A Shift from Structural to Transactional Issues. International Review of Research in Open and Distance Learning©, 1 (1), 1-17.

Em português: “Desafios Teóricos para a Educação a Distância no Século XXI: uma Mudança das Questões Estruturais para as Transacionais”, por Randy Garrison.

O artigo parte da premissa de que os quadros e os modelos teóricos são essenciais para a credibilidade e a viabilidade a longo prazo de uma qualquer área de actuação. Assim, para poder avaliar os desafios teóricos que encaram o campo da Educação a Distância, o autor apresenta inicialmente uma breve revisão das significativas contribuições teóricas feitas a esse sector durante o século XX.

Com base nessa revisão sobre a Educação a Distância como campo de estudo, o autor indica que houve, no início, uma preocupação com os limites organizacionais e estruturais da área, limites estes determinados pelas condições geográficas. Entretanto, o estudo também aponta que o desenvolvimento teórico sobre essa temática vem se deslocando das questões e pressupostos organizacionais para os transacionais (ou seja, pedagógicos, relativos ao binómio ensino-aprendizagem). O ponto em causa, então, diz respeito a se a Educação a Distância possui os fundamentos teóricos necessários para adentrar o século XXI e se o desenvolvimento das teorias nesta área conseguirão acompanhar os passos das constantes inovações ocorridas em termos da tecnologia e da prática.

Conforme aponta o autor, é evidente que o advento e o posterior desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC), com a diminuição dos custos de equipamentos (computadores e periféricos) e de serviços correlacionados (Internet de banda larga, plataformas, aplicações etc.), serviram para dar ao campo da Educação a Distância novas dimensões em termos de prática educativa.

Garrison alerta que, geralmente, falta aos administradores educativos uma compreensão coerente acerca dessa prática educativa e do escopo completo das possibilidades disponíveis para o alcance dos resultados pretendidos. Isso se dá pela ênfase que é colocada, não sobre os factores educativos, mas sim sobre os factores financeiros. O mesmo acontece com as empresas de tecnologia que desenvolvem os seus produtos de Educação a Distância tendo em vista a obtenção de lucros.

Ele aponta ainda que há uma confusão conceptual criada com o advento de novas terminologias relacionadas (educação a(à) distância, virtual, aberta, distribuída etc.), das novas tecnologias, das demandas por novos programas e de novos públicos-alvo. Ao mesmo tempo que o autor afirma que tais desenvolvimentos representam enormes desafios aos educadores para que percebam as diversas opções educativas a distância que estão disponíveis, ele também diz que os mesmos possuem uma hipótese sem precedentes de proporcionarem liderança e direcção na área. Esta parece ser uma afirmação contraditória na realidade educativa a que estamos expostos. Enfim, num ambiente assim de mudanças, de competição e de confusão, não parece ser possível aos educadores, a parte mais “fraca” em termos decisórios, liderarem nada com muitas hipóteses de sucesso na actual conjuntura.

Contudo, o autor acredita que um melhor conhecimento teórico dos princípios da educação a distância é um factor decisivo na determinação do papel de liderança que os educadores poderão desempenhar. Afirma que a teoria é uma ferramenta essencial para que os educadores repensem como irão cumprir com as demandas das suas instituições e dos seus alunos quando adoptarem abordagens educativas a distância. Desta forma, vale lembrar que o autor passa-nos uma ideia de que essa “teoria” sobre Educação a Distância, que ele considera ser importante aos educadores, não pode ficar apenas no papel ou assumir ares de “retórica” sem valor. Isto porque ele já indica ser necessário, logo a seguir a teoria, criar planos estratégicos viáveis para a adopção de métodos de educação a distância congruentes com os valores e as metas institucionais.

Hoje vemos claramente a tendência entre os investigadores e os profissionais da área de Educação a Distância de privilegiarem uma abordagem mais voltada para uma aprendizagem e um ensino colaborativos em detrimento das formas ainda dominantes de estudo autónomo e independente, estas últimas mais de acordo com o modelo de industrialização do ensino de Otto Peters.

As diversas teorias fundamentais das últimas três décadas do século XX que foram apontadas por Garrison no artigo em consideração talvez não sejam capazes de explicar ou de formatar as novas práticas de Educação a Distância em resultado dos avanços recentes da tecnologia nessa área. O mesmo pode ser dito no caso dessas teorias poderem prognosticar com um certo grau de exactidão os desenvolvimentos futuros no tocante aos recursos tecnológicos disponíveis e se estes serão capazes de solidificar a tendência de substituição dos modelos educativos a distância tradicionais pelas novas práticas transacionais e colaborativas.

Um parágrafo digno de nota no artigo menciona mais uma vez o Otto Peters (1993) que pergunta se não há “sinais de uma ‘nova era’ [na teoria educativa] que poderia ser chamada de ‘pós-industrial’”. Em vez de simplesmente anexar o sufixo “pós” ao nome dado à era anterior, há que se pensar numa definição mais específica para essa “nova era” que estamos a viver actualmente (lembremo-nos de que o artigo em consideração foi publicado há cerca de sete anos). Como no caso do termo “pós-moderno” que se aplica ao contexto literário, o termo “pós-industrial” tampouco não nos confere uma caracterização bem definida do nosso contexto educativo hodierno. Em conjunto com a disseminação cada vez mais ampla das NTIC e com o universo tão propalado das ferramentas de código aberto e dos repositórios de conhecimentos de acesso livre a todos, será que já não poderíamos falar de uma era “colaborativa”, até mesmo em contraposição ao conceito de industrialização?

Consoante isso, o autor menciona que o estudo que ele realizou indica que essa nova era é caracterizada pela habilidade dos educadores em “personalizar e compartilhar o controle” das actividades educativas transacionais mediante uma comunicação bidireccional no contexto de uma “comunidade de aprendizagem”. Tais educadores não mais são apenas membros de uma equipa organizacional de desenvolvedores de conteúdos que criam objectos de aprendizagem pré-prontos para estudo autónomo, mas sim são facilitadores de seus usos na Educação a Distância “de uma forma adaptável e atempada”. Naturalmente, está bem evidente que um dos maiores desafios para os educadores consiste em administrar o tempo que se tem disponível para cuidar adequadamente de todas as implicações que tal facilitação impõe.

Desta forma, o artigo serviu, então, para ajudar a todos os educadores e educadoras a terem uma melhor compreensão dos paradigmas educativos neste campo de actividade e a não temerem as inovações que vêm surgindo. Fiquemos atentos a elas!

Assim, conforme já mencionado, desde a altura de elaboração do artigo em causa já se passaram cerca de sete anos. Nesse meio tempo, e ainda antes disso, os novos quadros, modelos e conceitos baseados no paradigma transacional, pedagógico, já vêm sendo testados e utilizados por muitos(as) educadores(as) e investigadores(as) que bem podem ser chamados(as) de pioneiros(as) na tentativa de complementarem com êxito o modelo de aprendizagem independente, tradicional e característico daquela que outrora teve sua utilidade: a era industrial da Educação. A palavra, agora, é com eles(as)!