V Conferência Internacional de TIC na Educação - Challenges 2007 - Gualtar, 17 e 18 de Maio de 2007

Este artigo apresenta um resumo da Conferência Plenária “A Docência Presencial e Online e o Desafio Comunicacional da Cibercultura”, ocorrida logo após a Sessão de Abertura da V Conferência Internacional de Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação - Challenges 2007, no dia 17 de Maio de 2007, na Universidade do Minho, Campus de Gualtar, Braga, Portugal.

Proferida por Marco Silva, professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Mestre em Educação pela Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil, Licenciado em Sociologia, a conferência foi introduzida pelo Prof. Bento Silva, do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, que mencionou a ênfase dada pelo Prof. Marco Silva às práticas pedagógicas interactivas professor/aluno em seus estudos sobre a docência presencial e online.

Em sua fala, o Prof. Marco Silva proporcionou à assistência uma perspectiva a respeito da formação dos docentes para a docência online. Mencionou que existem hoje muitos problemas para a quebra do paradigma relacionado à mais de cinco mil anos de história da docência presencial, tradicional e infopobre, ou seja, a forma de docência tradicional na qual o professor assume uma pedagogia magistral e não utiliza ou não dispõe das novas tecnologias de informação e de comunicação.

A partir daí, Marco Silva passou a citar Paulo Freire e Vygotsky que nos convidam a uma partilha de conhecimentos, a uma interacção entre emissão/recepção e a uma pedagogia dialógica. Afirmou também que o sistema de ensino actual é mais semelhante a uma média de massas. Fez uma interessante comparação entre o conhecido apresentador de jornalismo televisivo brasileiro, Cid Moreira, da Rede Globo de Televisão, o mais poderoso canal de TV no Brasil, e o “mago” dos efeitos especiais da mesma rede televisiva, Hans Donner. O primeiro identifica-se com aquele professor cuja pedagogia baseia-se na eloquência, ao passo que o segundo assume uma postura voltada ao espectáculo. Porém, as duas personagens representam o modelo da transmissão, típico da televisão não interactiva.

A seguir, o palestrante apresentou uma imagem de uma sala de aula considerada como “do futuro” com alunos portando simuladores 3D. Porém, a avaliação dada por ele com respeito ao uso dessa técnica - e dentro do contexto considerado - indica que isso mais uma vez só serve para reforçar o modelo da transmissão de conhecimentos. Em contraste, Marco Silva mencionou a existência de um novo aluno com o qual o professor deve lidar: aquele que possui um olho digital e uma mente hipertextual. O desafio dos docentes agora é como operacionalizar as novas demandas educacionais que tais alunos proporcionam. Concluiu essa parte mencionando com propriedade as críticas à pedagogia da transmissão conforme Paulo Freire, Pierre Lévy e Martín Barbero (este último um dos autores mais preferidos por ele), em contraposição à pedagogia da autonomia que visa a construção do conhecimento por parte do aluno.

A Arte de Vestir o Parangolé Como ponto alto de sua conferência, Marco Silva brindou a assistência com sua visão sui generis a respeito da pedagogia da autonomia citando Hélio Oiticica e o seu “parangolé”. Com origem nos movimentos da contracultura e da arte “participacionista” da década de 1960 no Brasil, o parangolé do artista plástico carioca (denominação de quem nasce na cidade do Rio de Janeiro) foi um exemplo citado por Marco Silva da explicitação dos fundamentos da interatividade. O parangolé típico pode ser uma capa feita com camadas de panos coloridos que se revelam à medida que o indivíduo que a veste movimenta-se ao correr ou ao dançar.

Vale abrir aqui um parêntese para notarmos que o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa indica que o termo “parangolé” é de origem obscura. É um regionalismo da cidade do Rio de Janeiro e de uso informal. Todos os significados apontados pelo referido dicionário trazem uma forte conotação negativa: 1 - conversa sem pé nem cabeça, desconchavada; 2 - conversa desinteressante, conversa que não leva a nada; 3 - conversa fiada; lábia e 4 - comportamento desonesto para ludibriar alguém; malandragem, astúcia, esperteza. Exemplo: “um cara cheio de parangolé…”. Assim, queremos crer que Hélio Oiticica deve ter associado o termo original “parangolé” à concepção do “sem pé nem cabeça”, ou seja, referindo-se a algo sem percurso definido, mas sim aberto e mutável conforme os desejos do interventor.

De facto, a ideia central do parangolé é romper com o modelo comunicacional baseado na transmissão direccionada das informações. Ele representa uma proposta de participação activa por parte do indivíduo que deixa de ser espectador e passa a ser um interventor na obra de arte. Tal participação activa envolve os âmbitos sensorial, corporal e semântico e não uma mera participação mecânica nem apenas contemplação. Quem usufrui da arte é solicitado a completar os significados propostos no parangolé. Para além disso, não há um guião quanto ao que se deve fazer, mas as proposições de participação são abertas, como um convite ao indivíduo para que se torne um co-criador da obra. Desta forma, ele ou ela poderão imprimir ao trabalho de criação as suas próprias emoções, intuições, anseios, gostos, preocupações, devaneios e inteligências. Tal exercício de co-criação e de formação participativa, voltando aos destaques proporcionados por Marco Silva, são os pontos mais importantes do novo paradigma educativo.

Após essa breve exposição sobre o conceito do parangolé aplicado à educação, o conferencista apontou para alguns dos fundamentos da interactividade, tais como: participação/intervenção, bidireccionalidade/hibridação e permutabilidade/potenciali-
dade. Fez também uma descrição dos aspectos fundamentais do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) que envolvem, entre outros: intertextualidade, intratextualidade, multivocalidade, usabilidade, integração de várias linguagens, hipermédia, viabilização e incentivo à comunicação síncrona e assíncrona, mobilização e incentivo a uma rede de participação, proporcionamento de critérios de avaliação, criação de um ambiente propício à avaliação formativa e contínua.

Ao final, Marco Silva colocou seu endereço de correio electrónico à disposição dos presentes, indicou seus três livros à venda ao público e apontou para o sítio Sala de Aula Interativa onde poderão encontrar mais informações.