Brasil Desqualificado
O texto da semana de 14/05/2007 é de César Augusto Dionísio, economista e professor. Confira!
“A Economia pode até dizer que ‘precisamos crescer’. Mas, até onde consigo espiar, a Educação é que dirá ‘como vamos crescer’. Não adianta fazer meditação transcendental e ficar gemendo com fim de fazer o País de crescer. O Brasil está precisando de meditação. (…) O desemprego é, assim, um duplo problema. Para quem não contrata e para quem não é contratado.
Levante o dedo quem acredita que o Brasil precisa de mão-de-obra qualificada. Pois é. A despeito dos políticos que devem ter deixado o braço caído, qualquer brasileiro legítimo conhecedor das deficiências deste País deve ter erguido a mão.
Eu não sei bem qual é a teoria que suporta que é possível crescer com gente desqualificada. Não pessoas desqualificadas por opção, mas pessoas que nem sabem o que é isso. Que teoria é essa que prega que ‘desejar crescer’ já é o suficiente? E, vale dizer, de nada adiantará que se invista pesadamente em máquinas e equipamentos sem que ‘ensine’ a alguém como fazer funcionar, que botão apertar, onde ligar e onde desligar, como programar, como produzir, como consertar, como conservar o equipamento.
Já vi a cena várias vezes em multinacionais: chega a máquina nova e os funcionários ficam babando. Depois de instalada o maquinário, começa um processo de adoração do equipamento. Funcionários que faltam apenas reverenciar a máquina. Até que o primeiro engraçadinho honesto diz: ‘onde é que liga esse negócio?’
O episódio final é trágico: já que ninguém entende como operar a máquina importada, que fala Inglês, Alemão, Japonês e Chinês, os diretores da multinacional importada trazem técnicos importados para ensinar aos brasileiros desqualificados como é que se faz. E isso nem é importação de conhecimento.
Estamos mal treinados. Trazer a máquina ‘dos States’ pode ser uma ótima decisão. Vai alavancar a produção e aumentar, quiçá, o número de empregados. Este é um paradoxo que a Educação e a Economia combinaram armar para que nós decifrássemos: é preciso gente viva para operar a máquina morta. A máquina não trabalha sozinha (por enquanto). Precisa de gente viva, gente treinada, gente ensinada, gente educada para fazer tudo acontecer.
Fico pensando assustado sobre exemplos como Alemanha e Japão. Países destruídos pela Segunda Grande Guerra Mundial e que hoje encabeçam, juntos com os Estados Unidos, o topo da lista dos países que mais crescem. É preciso que entendamos uma coisa: eles ‘aprenderam’ a crescer. Tecnologia de ponta não se desenvolve sem escolas de engenharia de ponta. Estamos bem longe do chucrute e do yakisoba.
Ouvir esse papo de crescimento econômico sem qualificação da mão-de-obra é o mesmo que tentar aplicar uma espécie de jeitinho brasileiro (bem desqualificado) nas Teorias de Desenvolvimento Econômico. Pode até crescer, mas será uma falsa estatística.
O desemprego é um entrave ao crescimento econômico por duas vias: o empresário precisa, via de regra, contratar mão-de-obra para fazer crescer seu faturamento; e o desempregado precisa do emprego para viver ou, pelo menos, para sobreviver. A renda do trabalhador alavanca a produção, uma vez que o trabalhador passa a comprar mais. Mais renda, mais gasto. Mais gasto, maior o consumo. Maior o consumo, mais produção. Mais produção, mais emprego. Mais emprego, mais renda. O desemprego é, assim, um duplo problema. Para quem não contrata e para quem não é contratado.
O desemprego é uma das temáticas mais freqüentes na análise econômica. É só a economia piorar um pouquinho que lá vem o pessoal preocupado com o emprego. A causa é justa, mas, mais uma vez, acredito que o desemprego não é um problema estritamente econômico. Assim, a Educação também deveria estudar o desemprego. Desde que Keynes, o pai da Macroeconomia, brincou com expressão ‘pleno emprego’, tem muito economista viajando exclusivamente na maionese da Economia.
A Economia pode até dizer que ‘precisamos crescer’. Mas, até onde consigo espiar, a Educação é que dirá ‘como vamos crescer’. Não adianta fazer meditação transcendental e ficar gemendo com fim de fazer o País de crescer. O Brasil está precisando de meditação.
Por enquanto, existem certos caminhos para resolvermos o problema da qualificação da mão-de-obra no Brasil: educação da família, educação da escola, educação do mestre, educação do dia-a-dia e educação de si mesmo. Tudo isso posto no liquidificador, desde que bem batido, se tornará a Educação de um País. Fico ansioso pelo dia em que a Educação seja vista como um vício. O dia em que a Educação se tornar um vício, colocarei sob suspeita as clínicas de recuperação.”

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